Plantas Não-Cannabis Que Contêm Canabinoides
- 1. Canabinoides e o sistema endocanabinoide
- 1. a. Receptores canabinoides
- 1. b. Seu corpo produz canabinoides?
- 2. Plantas não-cannabis que produzem canabinoides
- 2. a. Cacau
- 2. b. Pimenta preta
- 2. c. Equinácea
- 2. d. Helichrysum
- 2. e. Trufas pretas
- 2. f. Marchantia japonesa (líquen do fígado japonês)
- 2. g. Brássicas
- 2. h. Cogumelo reishi
- 2. i. Kava
- 2. j. Cogumelo cauda-de-peru
- 2. k. Margarida elétrica
- 3. Receita diy de mistura de ervas
- 4. Conclusão
Além dos endocanabinoides que nosso corpo produz naturalmente para regular e equilibrar vários processos, como resposta imunológica, comunicação entre células, apetite e metabolismo, existe outro tipo conhecido como fitocanabinoides, que são os canabinoides produzidos pelas plantas cultivadas a partir de sementes de cannabis. Antes acreditava-se que esses fitocanabinoides eram produzidos apenas por plantas de cannabis, mas pesquisas recentes descobriram que outras plantas também produzem canabinoides. Neste artigo, você vai conhecer vegetações que produzem esses compostos naturalmente.
1. Canabinoides e o Sistema Endocanabinoide
O sistema endocanabinoide desempenha um papel na regulação de processos fisiológicos incluindo apetite, sensação de dor, humor e memória, dependendo do receptor ao qual o canabinoide específico se liga.

Os canabinoides naturalmente presentes que se ligam aos receptores canabinoides são produzidos internamente por humanos e animais, mas existem outros tipos de canabinoides que afetam o corpo de maneira semelhante.
Apesar de todos serem compostos químicos capazes de afetar corpo e mente de diferentes maneiras, eles são divididos em categorias de acordo com sua origem.
| Endocanabinoides | Fitocanabinoides | Canabinoides sintéticos |
|---|---|---|
| Endo = dentro | Fito = plantas | Sintético = feito pelo homem |
| Produzido internamente no nosso corpo | Produzido por plantas | Produzido em laboratórios |
Receptores Canabinoides
O sistema endocanabinoide contém receptores endocanabinoides que são responsáveis por ligar-se a estes compostos para que atuem no organismo. Esses receptores são divididos em dois principais tipos: CB1 e CB2. Os receptores CB1 são encontrados principalmente na cabeça e acredita-se que sejam os receptores aos quais o THC se liga, enquanto os receptores CB2 predominam na parte inferior do corpo e acredita-se que recebam o CBD.

Os efeitos que um canabinoide específico proporciona dependem de onde o receptor está localizado. Por isso, por exemplo, o CBD pode relaxar seus músculos e aumentar o apetite, enquanto o THC intensifica, por exemplo, cores, aromas e sabores. Mas apesar de serem produzidos de várias formas, os canabinoides que mais interessam aos cultivadores são os fitocanabinoides, que estão presentes não só nas plantas de cannabis, mas também em uma ampla variedade de plantas comuns.
Seu Corpo Produz Canabinoides?
O sistema endocanabinoide é uma rede complexa de receptores canabinoides espalhados por todo nosso corpo, em locais como cérebro, órgãos, tecidos conjuntivos e células do sistema imunológico, entre outros. Nosso sistema endocanabinoide é formado por mecanismos diferentes nos quais enzimas tanto destroem quanto criam canabinoides, receptores canabinoides e endocanabinoides, basicamente, compostos químicos semelhantes ao THC ou CBD. Mas esses endocanabinoides estão presentes também em animais, não só em humanos. Tanto os endocanabinoides produzidos por animais quanto por humanos foram feitos para atuar em conjunto com nossos receptores canabinoides, tais como os Receptores Canabinoides 1 e 2 (também conhecidos como CB1 e CB2), desencadeando uma série de respostas celulares necessárias para o funcionamento saudável. O que isso significa? Bem, esses endocanabinoides moderam e podem influenciar diversas funções fisiológicas, como apetite, dor, prazer, memória, inflamação, sono, humor e muitas outras. Basicamente, é por isso que sentimos sono, temos fome ou aliviamos dores com os canabinoides produzidos pelas plantas de cannabis, como o THC e o CBD.
Além das funções básicas, nosso sistema endocanabinoide também responde a doenças. Pesquisadores descobriram que células cancerígenas apresentam mais receptores canabinoides do que células saudáveis. Pesquisas mostram também aumento na produção de endocanabinoides em pacientes com ansiedade, dor crônica, Parkinson e artrite, dentre outras condições. Em essência, o sistema endocanabinoide (ECS) troca mensagens entre cérebro e corpo, garantindo que tudo funcione corretamente e ajudando a gerenciar nosso ciclo do sono, controle da fome e outros processos básicos. Apesar da sua localização, cientistas também descobriram que os receptores estão concentrados principalmente no cérebro, sistema nervoso e órgãos reprodutivos, sem afetar o funcionamento do coração e pulmões, por isso se acredita ser impossível morrer de overdose de cannabis.
Especialistas afirmam que o sistema endocanabinoide é basicamente uma ponte entre corpo e mente, então, ao entender como o ECS funciona, podemos entender melhor os benefícios e riscos dos canabinoides e endocanabinoides, o que auxilia no nosso conhecimento sobre o próprio sistema endocanabinoide.
3. Plantas Não-Cannabis Que Produzem Canabinoides
Agora que você sabe sobre canabinoides sintéticos, endocanabinoides e fitocanabinoides, vamos falar sobre os canabimiméticos. Canabimiméticos são compostos que imitam canabinoides e conseguem interagir com o sistema endocanabinoide, tendo efeitos iguais ou semelhantes aos que você experimentaria com outros tipos de canabinoides. Então, neste artigo, vamos falar sobre plantas que produzem fitocanabinoides ou canabimiméticos, excluindo obviamente a cannabis. Estas plantas são muito fáceis de obter e, o melhor de tudo, são legais!
Originalmente, os canabinoides eram considerados uma família de compostos exclusivos da planta cannabis que compartilhavam estrutura molecular semelhante. Enquanto alguns cientistas ainda seguem esta definição, outros ampliaram a categoria para incluir qualquer composto capaz de se ligar aos receptores canabinoides do corpo humano. Interessantemente, isso abre um enorme leque de substâncias encontradas na natureza, tanto no reino vegetal quanto no fungos. Até o momento, essas moléculas ainda são pouco estudadas, e é provável que muitas nem tenham sido descobertas. Com o tempo, essas moléculas podem se tornar candidatas a medicamentos para diferentes males enfrentados pelos humanos, principalmente se agirem de forma semelhante às derivadas da cannabis.
Cacau
O cacau é um superalimento que contém várias substâncias químicas benéficas, como teobromina, feniletilamina, triptofano e anandamida, as quais ajudam na produção de serotonina e melatonina. A serotonina é o principal hormônio que estabiliza o humor e a sensação de bem-estar ou felicidade, ajudando em distúrbios do sono, alimentação e digestão, enquanto a melatonina está relacionada ao ciclo vigília-sono e pode ser usada para tratar insônia, por exemplo.

Apesar de conter todos esses compostos acima, esse superalimento possui maior concentração de anandamida do que as outras substâncias, um endocanabinoide naturalmente produzido pelo cérebro humano. Esse composto regula humor, memória, apetite e percepção de dor, e é frequentemente chamado de “versão natural do THC” do nosso corpo, devido à sensação de felicidade liberada, semelhante à satisfação após se exercitar (também conhecido como runner’s high). Apesar da crença popular, o chocolate realmente contém anandamida, mas, para obter os mesmos benefícios que o cacau, você precisa de chocolate cru, orgânico e puro. Isso significa que você não vai obter as mesmas vantagens com produtos industrializados, como chocolate ao leite, pois o leite bloqueia a absorção destes compostos.
Apesar de acreditar-se que o chocolate não contém anandamida, ele na verdade possui precursores que ajudam o corpo a produzir anandamida.
Pimenta Preta
Pimenta preta é uma erva muito comum, usada na culinária e presente em praticamente todos os lares pelo mundo, mas a maioria das pessoas não sabe que a pimenta preta contém grande quantidade de beta-cariofileno.

Esse é o terpeno que confere aroma apimentado/picante às strains de cannabis e, além do cheiro, o beta-cariofileno atua nos receptores CB2, assim como o CBD, proporcionando efeito anti-inflamatório potente, capaz de aliviar dores articulares facilmente.
Equinácea
Equinácea é uma flor rosa-vibrante belíssima, geralmente utilizada como remédio para resfriado, mas tem muito em comum com a cannabis no que se refere ao sistema canabinoide.

Essa planta interage com os receptores CB1, mas, ao invés de ser com canabinoides, atua via canabimiméticos. Estudos indicam que a equinácea pode aliviar ansiedade, enxaquecas, fadiga e artrite devido às amidas naturais presentes nela, que têm efeitos muito semelhantes aos produzidos pelo THC.
Helichrysum
O Helichrysum contém grandes quantidades de CBG, o mesmo fitocanabinoide encontrado em plantas de cannabis, frequentemente usado como antidepressivo e estabilizador de humor.

Infelizmente, devido às leis atuais, é muito difícil estudar mais sobre o CBG nessa flor, porém é um fato cientificamente comprovado que esse composto produz tais efeitos e tem sido amplamente utilizado em cerimônias rituais por seus efeitos psicotrópicos, que são muito semelhantes aos da cannabis.
Trufas Pretas
Trufas pretas produzem a mesma anandamida encontrada na cannabis e no cacau, proporcionando um efeito comparável ao “runner’s high”. Essa substância se liga aos receptores CB1, ajudando a regular o humor e a percepção da dor.

Vale lembrar que, antes de consumir grandes quantidades de trufas pretas ou qualquer outra planta ou erva, você deve pesquisar e saber o que está fazendo pois pode ser alérgico(a) e passar mal.
Marchantia japonesa (Líquen do fígado japonês)
A Marchantia japonesa não possui efeitos psicotrópicos mas contém grandes quantidades de ácido perroteninénico, um canabinoide semelhante ao THC.

Ao se conectar aos receptores CB1, essa planta apresenta efeitos semelhantes aos da cannabis e pode ser utilizada para tratar fígado, bexiga e vesícula, além de tratar bronquite e problemas respiratórios crônicos.
Brássicas
A família das brássicas inclui vegetais que muitos de nós consumimos com frequência, como acelga chinesa, mostarda, couve, brócolis, repolho, couve-flor e couve-manteiga. Curiosamente, nenhum desses vegetais existe na natureza selvagem; são resultado da seleção e todos compartilham um ancestral comum — o repolho selvagem, sendo todos da mesma espécie vegetal (Brassica oleracea). Estes vegetais oferecem diversos benefícios à saúde graças aos bons níveis de vitaminas C, A, E, K, folato, cálcio e ferro. Além disso, contêm vários metabólitos secundários, dentre eles um canabinoide. Conhecido como “dieta indol”, o DIM é uma molécula capaz de ativar parcialmente o receptor CB2.
Cogumelo Reishi
O cogumelo Reishi é utilizado há milhares de anos na medicina tradicional chinesa (MTC). Tem propriedades adaptogênicas e é conhecido por ajudar o organismo a lidar com diferentes formas de estresse. Estes cogumelos são cheios de compostos medicinais interessantes. Análises recentes mostraram que algumas variedades de reishi também contêm canabinoides que afetam o sistema endocanabinoide de várias maneiras.
Kava
Kava é geralmente utilizada para preparar chás medicinais no tratamento de ansiedade, dor crônica e por seus efeitos sedativos. Esta planta é rica em kavalactonas.

Esta planta tem sido usada há anos como tratamento em casos de dependência devido à sua interação com os receptores CB1 do sistema nervoso central, assim como o THC.
Cogumelo Cauda-de-peru
O cogumelo cauda-de-peru é famoso no universo dos fungos medicinais. Ele contém compostos únicos que apresentam propriedades medicinais impressionantes em estudos científicos. Na natureza, é fácil identificar esses fungos: crescem ao lado de troncos apodrecidos e têm círculos concêntricos coloridos na superfície superior e poros brancos suaves por baixo. Entre os constituintes deste cogumelo, o polissacaropeptídeo (PSP) tem sido estudado por seus efeitos em células cancerígenas, e vários ensaios clínicos mostram grande potencial. Curiosamente, outros estudos em animais descobriram que essa molécula atua como agonista do receptor CB2 do sistema endocanabinoide.
Margarida Elétrica
A margarida elétrica é usada há anos na região amazônica devido às suas propriedades analgésicas. Pesquisas recentes descobriram que essa planta na verdade bloqueia os receptores de dor nas terminações nervosas.

Ela oferece uma forma eficaz de aliviar dores graças ao canabinoide N-isobutilamida, que interage com os receptores CB2, regulando dor e inflamação em todo corpo. Agora, atenção: a maioria dessas plantas não vai te deixar “chapado” a menos que você consuma quantidades enormes, pois, apesar de conterem canabinoides, as quantidades são baixas se comparadas à cannabis, mas são uma ótima alternativa para quem deseja os benefícios de canabinoides e terpenos sem os efeitos psicoativos.
| Planta ou erva | Consumo | Planta ou erva | Consumo |
|---|---|---|---|
| Cacau | Consumido cru | Trufas pretas | Consumidas cruas |
| Pimenta preta | Consumida crua | Margarida elétrica | Óleo |
| Equinácea | Chá | Líquen japonês | Chá |
| Helichrysum | Óleo | Kava | Chá |
Lembre-se: para consumir qualquer uma dessas plantas, é fundamental preparar de acordo com o tipo para obter os melhores resultados, por isso elaboramos a tabela acima.
Receita DIY de Mistura de Ervas
Além das plantas e ervas mencionadas, existem várias outras que são benéficas para os humanos mesmo sem conter canabinoides, como tanchagem, escutelária, artemísia, hortelã, sálvia e uva-ursi.
| Efeito | Planta ou erva |
|---|---|
| Anti-inflamatório | Tanchagem e Escutelária |
| Antibacteriano | Sálvia e Uva-ursi |
| Contra insônia | Artemísia |
| Aliviar dor | Hortelã |
Se você não quer lidar com chás ou óleos, aqui está uma receita rápida para fazer sua própria mistura de ervas para fumar. Tenha em mente que você precisará de diferentes ervas de acordo com sua preferência e efeito desejado.

Em primeiro lugar, você precisará cultivar ou comprar as ervas frescas, depois seque-as lentamente e, após totalmente secas, triture em pedaços pequenos, igual faria com flores de cannabis. Em seguida, prepare sua mistura da seguinte maneira:
- 50% Tanchagem;
- 40% Artemísia e Escutelária (ou Uva-ursi para sabor semelhante ao tabaco);
- 10% Hortelã ou Sálvia.
Agora é só enrolar e aproveitar. Lembre-se: esta é uma sugestão genérica, então, se quiser tratar algum sintoma específico, pode substituir uma das ervas por outra de sua preferência.
4. Conclusão
Embora não sejam tão potentes quanto as flores de cannabis, todas essas plantas e ervas podem trazer benefícios de várias formas, se consumidas corretamente. Tenha em mente que pode haver alergia a alguma delas, então certifique-se de saber o que pode ou não consumir antes de experimentar. Se você tem uma receita própria de blend de ervas ou conhece uma forma melhor de aproveitar os benefícios dessas plantas e ervas, compartilhe suas dicas com outros cultivadores e deixe seu comentário abaixo!
Referências Externas:
- A closer look at cannabimimetic terpenes, polyphenols, and flavonoids: a promising road forward. Neural Regeneration Research. - Cavalli, Juliana & Dutra, Rafael Cypriano. (2021).
- Terpenoids, Cannabimimetic Ligands, beyond the Cannabis Plant. Molecules. - Gonçalves, Elaine & Baldasso, Gabriela & Assunção Bicca, Maíra & Paes, Rodrigo & Capasso, Raffaele & Dutra, Rafael. (2020).
- Cannabis sativa Terpenes are Cannabimimetic and Provide Support for the Entourage Effect Hypothesis. - LaVigne, Justin & Hecksel, Ryan & Keresztes, Attila & Streicher, John. (2020).
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